quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Paródia

É pão, é chá, “malemá” um café...
No começo do dia pra vencer a labuta
É o pobre tentando viver mais um dia

Assim é o sertanejo
Que trabalha na terra
Suor, poeira na pele
Sol e seca no chão

É o pobre fazendo das tripas coração
É o pobre fazendo das tripas coração

O almoço é melhor
Tem até ovo frito
É o que sustenta até a hora do grude,

E assim a esperança vai lhe dando saúde
E assim a esperança vai lhe dando saúde

É pão, é chá, “malemá” um café...
No começo do dia pra vencer a labuta
É o pobre tentando viver mais um dia

Seu olhar é uma prece
Pra chover um pouquinho
E brotar a plantinha que é o seu ganha-pão
E tratar dos filhinhos em melhor condição
E tratar dos filinhos em melhor condição

É pão, é chá, “malemá” um café...


Célia

Paráfrase

Paráfrase

A Casa

Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero

Vinicius de Moraes






O barraco

Era um barraco
Com muita graça
Tendo por teto
Um pé de goiaba
Todos podiam
Entrar nele sim
Pois dentro dele
Tinha um jardim
Todos podiam
Dormir nas redes
Que estavam presas
Em suas paredes
Todos podiam
Fazer xixi
Em todo canto
Que havia ali
Ele era feito
De pedra e sargaço
Na rua dos Beijos
Bairro do Abraço.


Maria Ivone Pandolfi

Vinicius de Moraes

Vinícius de Moraes: poeta, dramaturgo, compositor

Teve uma vida agitada e efervescente tal como o momento de seu nascimento: diz-se que ele nasceu em meio a forte temporal, na madrugada de 19 de outubro de 1913, no antigo nº 114 (casa já demolida) da Rua Lopes Quintas, no Jardim Botânico, ao lado da chácara de seu avô materno, Antônio Burlamaqui dos Santos Cruz.
A tradição da escrita já estava instalada na família: sua mãe d. Lydia Cruz de Moraes era casada com Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, sobrinho do poeta, cronista e folclorista Mello Moraes Filho e neto do historiador Alexandre José de Mello Moraes.
Vinicius de Moraes foi bacharel em Letras e licenciou-se em Direito, seguindo carreira diplomática, mas entrou para história como poeta, compositor e dramaturgo. Escreveu vários livros de poesia, dentre eles O caminho para a distância (1933), Cinco elegias (1943), Livro dos sonetos (1957) e Para viver um grande amor (poemas e crônicas) (1962). Escreveu também poemas para crianças em sua obra A arca de Noé, lançada em disco em 1980, ano de seu falecimento.
Escreveu peças de teatro como Orfeu da Conceição (1956) e Procura-se uma rosa, em parceria com Pedro Bloch e Gláucio Gil.
Fez várias parcerias como compositor, sendo a mais conhecida a parceria feita com Toquinho, com quem gravou músicas e participou de shows em muitas cidades no país.
Pertence à chamada “geração de 30” do Modernismo brasileiro, embora mais novo que seus pares Carlos Drummond de Andrade, Murilo Mendes e Augusto Frederico Schmidt e mais influente que eles nos ulteriores movimentos poéticos.
Casou-se nove vezes e teve quatro filhas.
Em 1979, voltando de viagem à Europa, sofre um derrame cerebral no avião. É operado a 17 de abril de 1980, para a instalação de um dreno cerebral. Morre, na manhã de 9 de julho desse mesmo ano, de edema pulmonar, em sua casa, na Gávea, em companhia de Toquinho e de sua última mulher, Gilda de Queirós Mattoso.

Fontes:
Internet

Dicionário de Literatura (direção de Jacinto do Prado Coelho)

VINICÍUS DE MORAIS O DESESPERO DA PIEDADE Breves palavras


       No poema “O desespero da piedade”, Vinicíus usa duas palavras tristes: desespero e piedade. Pelos sinônimos de desespero (falta de esperança, aflição) e piedade (compaixão, dó, misericórdia), vejo este poema como uma oração, uma súplica, uma devoção, amor e respeito, respeito por todos.” Senhor tem piedade”, que é repetido diversas vezes, não tem sentido de dó; são invocações, preces, pedidos ao Senhor que acolha a todos.  Mesmo nos momentos de grande aflição, temos, nem que seja tênue, um fio de esperança que nos acolhe. Esses versos são todos de súplicas, pedidos, uma maravilhosa forma de elevação espiritual.
E aqui, fazendo minhas, suas palavras Tende piedade, Senhor...
Piedoso com todos, que tudo merece piedade.
E se piedade vos sobrar, Senhor, tende piedade de uma pobre mortal que gostaria muito de saber escrever poemas e  prosa.
                                                               

                                                                   Orciza Caricati Salgado 

Haicai

No céu brilha a lua cheia
Na terra, o silêncio
E eu aqui entre os dois.
Maria Ivone Pandolfi
Cenas do cotidiano
São obras de arte
No toque de Rubem Braga.

Maria Ivone Pandolfi

Uma outra coisa


Já era noite quando o ônibus parou no posto da estrada. Quase todos saíram para esticar as pernas, ir ao banheiro, tomar um lanche ou simplesmente fumar. Resolvi que ir primeiro ao banheiro seria mais conveniente. O lanche, se desse tempo, comeria depois.
Eis que, sonolenta, lavando as mãos, ouvi uma estranha conversa de duas moças que acabavam de entrar...

“... mas, aí, não tive dúvida, coloquei  “ele” no meu carro e levei para o meu apartamento. O duro foi segurar “ele” no elevador, pois estava tão eufórico  que babava nos meus peitos...
- Nossa! E como você fez para dominá-lo?
- Ah! E quem disse que eu consegui? O máximo que fiz foi colocar “ele” no banho, mas tive de entrar junto, pois ele me molhou toda...
- Mas, aí, limpinho, levou pro quarto ou pra sala ou...
- Levei pro quarto... ele se aninhou no edredon e me olhou... sabe? com aquela cara de quem quer carinho? Não pensei duas vezes... já que vim até aqui, que seja... No dia seguinte, saí pra comprar ração, caminha e outros mimos no Pet shop perto de casa...”
Enxuguei as mãos, lavadas exaustivamente, respirei fundo e saí para olhar o céu estrelado e a lua cheia que alta brilhava.
Nem tudo é o que parece.
Maria Ivone Pandolfi 

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Ciclo Rubem Braga

Ciclo “100 anos de Rubem Braga”
05 de fevereiro a 28 de maio
        

Um pouco de Rubem Braga

Cachoeiro de Itapemirim (ES) nem sabia ainda, mas o dia 12 de janeiro de 1913 a inscreveria para sempre na História: nascia ali, naquela data, Rubem Braga, um dos maiores cronistas da literatura nacional.
Ele se formou em Direito, mas nunca advogou, não quis seguir essa carreira: apaixonou-se pelo ofício do jornalismo e foi no exercício dessa profissão que se formou como cronista. Escreveu para vários jornais e revistas em diferentes estados do Brasil e foi correspondente de jornais brasileiros no exterior.
“Sempre gostou de viajar, escrevendo para vários jornais brasileiros reportagens sobre os países onde esteve, como Paraguai, Colômbia, Cuba, México, Estados Unidos, Portugal, Itália, Inglaterra, Grécia, Angola, Moçambique, África do Sul e Índia. Viveu em Paris durante o ano de 1950, de onde enviou regularmente crônicas para o Correio da Manhã.” (BRAGA, 1986).
“Apesar das muitas viagens e da experiência cosmopolita, Rubem Braga nunca desprezou sua origem capixaba: sua cidade natal, Cachoeiro de Itapemirim, é uma espécie de foco poético de seus textos, freqüentemente voltados para as fontes da infância e das lembranças daquela terra:
Hoje minha mãe já não faz a longa e penosa caminhada, sob o sol de Cachoeiro, para ir ao lado de lá do rio assistir à missa. Atravessou a ponte todo domingo durante muitas e muitas dezenas de anos, e está velha e cansada. Não me admiraria saber que Deus, não recebendo mais sua visita, mande às vezes, por consideração, um santo qualquer, talvez Francisco de Assis, fazer-lhe uma visitinha do lado de cá, em sua velha casa verde. (“Lembrança de Zig”)” (HAFEZ, 1997, p. 8-9).
Embora tenha escrito contos, sua maior e mais conhecida produção foi a crônica, dando-lhe um status literário nem sempre reconhecido para esse gênero discursivo. Segundo alguns críticos, a crônica é considerada um gênero menor, sem o valor literário das produções de poetas, contistas, novelistas e romancistas. Na contramão das ideias dos críticos, Rubem Braga provou que a crônica pode estar entre os gêneros literários de primeira ordem. Suas crônicas líricas, poéticas, levam o leitor a descobrir beleza, ternura e encantamento em pequenos e aparentemente insignificantes fatos do dia a dia, da vida corriqueira e da enfadonha rotina das pessoas. Tudo adquire um tom luminoso em suas mãos.
Um exemplo dessa sua capacidade de em tudo ver beleza e expressá-la poeticamente pode-se encontrar em “Um pé de milho”: “[...] Anteontem aconteceu o que era inevitável, mas que nos encantou como se fosse inesperado: meu pé de milho pendoou. Há muitas flores belas no mundo, e a flor de milho não será a mais linda. Mas aquele pendão firme, vertical, beijado pelo vento do mar, veio enriquecer nosso canteirinho vulgar com uma força e uma alegria que fazem bem. Meu pé de milho é um belo gesto da terra. [...]” (BRAGA, 1978, p. 43). Ou, na crônica “Neide”: “[...] O céu está limpo, não há nenhuma nuvem acima de nós. O avião, entretanto, começa a dar saltos, [...]. olho pela janela: é que estamos sobrevoando de perto um grande tumulto de montanhas. As montanhas são belas, cobertas de florestas; no verde-escuro há manchas de ferrugem de palmeiras, algum ouro de ipê, alguma prata de imbaúba – e de súbito uma cidade linda e um rio estreito. Dizem-me que é Petrópolis. [...]”. (BRAGA, 1986, p. 57). São dois exemplos apenas, mas que ilustram bem a forma pela qual Braga elaborava seus textos.
Em 1936, publicou seu primeiro livro, uma coletânea de crônicas: “O conde e o Passarinho”. E, desde então, publicou vários livros de crônicas, sua mais vasta produção. Também escreveu poemas, mas como poeta era considerado um autor bissexto, produzindo rara e esporadicamente. “Os poucos poemas que escreveu foram reunidos em 1980 no volume Livro de Versos, publicado em Recife” (HAFEZ, 1997, p. 9).
A 19 de dezembro de 1990, no Rio de Janeiro, encerrou seu ciclo de vida entre nós, mas deixou, para sempre, seu inestimável legado: suas crônicas e contos em que acontecimentos diários e pequenos “causos” de que tem notícia são temperados com a poesia que parece ser “seu estado natural de espírito, [...] seu clima” (MILIET, in HAFEZ, 1997).


Referências:

1-    BRAGA, Rubem. O verão e as mulheres. 5.ed. Record, 1986.
2-    BRAGA, Rubem. 200 cronicas escolhidas: as melhores de Rubem Braga. 5.ed. Record, 1978.
3-    HAFEZ, Rogério. Os melhores contos de Rubem Braga. Análise e exercícios de Rogério Hafez. Coleção Objetivo – os livros da FUVEST. São Paulo, 1997.
4-    MILIET, Sérgio. In HAFEZ, Rogério. Os melhores contos de Rubem Braga. Análise e exercícios de Rogério Hafez. Coleção Objetivo – os livros da FUVEST. São Paulo, 1997.


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